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Capa de Thrak
Música 9/10

Thrak

King Crimson

  • rock progressivo
  • experimental
  • jazz-rock

1995: o King Crimson ressurge com uma formação impossível — o Double Trio. Dois guitarristas, dois baixistas, dois bateristas, todos tocando ao mesmo tempo. Robert Fripp não estava interessado em dobrar a potência. Estava interessado no que acontece no espaço entre duas entidades que deveriam colidir, mas não colidem.

Thrak é a resposta.

O experimento como estrutura

A premissa do Double Trio não era apenas estética. Era uma hipótese sobre improvisação coletiva: se dois trios autônomos compartilham um palco, cada um respondendo ao outro em tempo real, o resultado não é o dobro de barulho — é uma terceira coisa que nenhum dos dois produziria sozinho.

O álbum abre assim: Vrooom deixa isso evidente logo nos primeiros segundos. É uma conversa, quase como um jogo de pergunta e resposta da música clássica. Só que aqui, enquanto a pergunta é feita, ela já é retrucada. É uma discussão que soa muito bem, interrompida por temas essencialmente king-crimsonianos.

Dinosaur encarna sua criatura por meio de um riff pesado e desengonçado, acompanhado por grunhidos e roncos produzidos pelas guitarras. É aqui que o álbum parece realmente começar, depois que as faixas anteriores apresentam seu conceito e estabelecem o solo em que estamos pisando.

Adrian Belew assume o papel de um sobrevivente que contempla a própria obsolescência. A imagem parece refletir a situação do próprio King Crimson: uma banda reconhecida sobretudo pelos grandes feitos do passado, como In the Court of the Crimson King e Red.

A esse ambiente quase caricatural contrapõe-se um refrão melódico e épico, interrompido por uma passagem introspectiva que sugere o medo da extinção. É quase como uma consciência que reflete sobre sua vulnerabilidade e percebe que sobreviver não significa ser eterno. Ao final, porém, a música recupera sua força com um solo carregado, como se o dinossauro reagisse à ameaça do desaparecimento com uma última demonstração de vitalidade, impondo-se e mostrando sua natureza.

Se Dinosaur pergunta o que significa sobreviver ao próprio tempo, People pergunta o que significa sobreviver aos outros. A faixa tem uma musicalidade elástica e funky e procura demonstrar a variedade dos comportamentos humanos e o modo evasivo como o homem cria subterfúgios para si mesmo. Ao mesmo tempo, reconhece que são essas mesmas pessoas, confusas e contraditórias, que movem o mundo e o mantêm em funcionamento.

Um disco de maturidade

Thrak não é um disco fácil. Tem a polimetria criativa de Discipline, dosada com a brutalidade de Red: é a síntese dos dois em algo novo, mas que expressa perfeitamente uma banda de estilo único. As músicas e o próprio álbum são constantemente interrompidos, alternando-se entre um extremo e outro.

Como todo álbum de rock progressivo, Thrak tem de ser ruminado. É um disco para ser revisitado — para ouvir três, quatro vezes, até que as camadas comecem a revelar seus eixos. Quando isso acontece, o que parece caos organizado passa a ser inevitavelmente atraente, quase um reflexo de nós mesmos.

É isso, no fim, que toda grande música progressiva aspira a ser: instigante, azeda ao primeiro paladar, mas saborosa na digestão.