
Santo Guerreiro - Roma Invicta
São Jorge é inconfundível. Crendo ou não crendo, a imagem de um guerreiro derrotando um dragão não passaria despercebida pelo mais cético dos olhares. Aqui no Brasil, devido a uma amálgama da piedade popular entre religiões, o santo tem talvez a maior popularidade entre todos os santos (não é por acaso que o autor dessa obra seja brasileiro). O que esse livro traz é a história desse ícone guerreiro, tão interessante, de uma forma mais palpável à imaginação, dando coerência e solidez a uma lenda ao mesmo tempo reconhecível, porém desconhecida.
Romance Histórico
A estrutura do livro é bem agradável. Como católico, devo admitir que fiquei animado ao reconhecer no livro personagens que não esperaria ver ao conhecer a obra. Eduardo Spohr decidiu enriquecer a narrativa dividindo a obra em tomos narrados por Flávia Helena, mãe do imperador Constantino, e enviados ao bispo-historiador Eusébio de Cesareia. Daí duas tramas: a interessante trajetória de Georgios, ou seja, São Jorge, e a correspondência afetiva entre o bispo e sua remetente. Isso traz à narração uma justificativa, bem como uma imersão mais profunda no aspecto histórico do enredo. De fato, sem esses dois personagens, o livro teria uma textura bem diferente, talvez muito distante do próprio personagem Georgios.
Em contrapartida, é difícil imaginar que certas coisas seriam escritas por Helena da maneira que foram. Na verdade, pensar nisso chega a incomodar. Alguns termos no livro poderiam ser evitados, e isso pode desagradar pouco ou muito, a depender do perfil de cada leitor. É uma pequena decepção com a obra. O próprio personagem de Eusébio parece concordar comigo de algum modo, pois, no final do primeiro tomo, chama a atenção de Helena sobre os detalhes das cenas de amor dos personagens.
Desenvolvimento
A história se desenvolve lentamente, começando anos antes do nascimento do menino Georgios, com seu pai Laios em uma campanha do exército romano. Para alguns talvez pareça uma grande digressão, mas a narração sobre seu pai não é enjoativa. Na verdade, o problema talvez seja a forma como a transição da história sai de Laios para seu filho, que parece ser algo muito repentino e destaca pouco a relação entre eles, levando em consideração os desdobramentos ao longo do livro, que tirariam dessa relação uma coesão mais perfeita entre as personagens.
Ao narrar Georgios, a história retoma seus rumos e a evolução torna-se mais rápida, instigando a curiosidade do leitor. É interessante ver a jornada de Georgios cruzando o mundo antigo, perceber as relações de causa e efeito na vida, encontros e desencontros.
No entanto, por se tratar de uma obra de três volumes, não é aqui que a imagem que temos de São Jorge é plenamente revelada, mas apenas a formação jovem do rapaz. Conhecemos suas raízes, sua mentalidade e sua motivação para algo maior no futuro, prometido a ele por inúmeras pessoas ao longo de seus poucos anos de vida.
A despeito disso, a obra não deixa de ser muito boa e cativante, superando os pontos negativos. A premissa criativa da história torna o livro uma ótima opção para quem gosta de romances históricos com personagens heroicos.
Grande Santo, grande história
Feitas todas as considerações, o livro é bom. Tenho a sensação de que os próximos serão melhores e pretendo ler os dois volumes restantes. É uma boa história, perfeita para descansar entre obras mais densas, como fiz. Leitura simples, não pedante, mas frequentemente bonita e polida. Espero que os próximos sejam assim também.