A Serpente de Bronze — Fé, Coragem e Redenção
Há alguns anos comecei a escrever alguns pequenos comentários sobre alguns estudos da língua grega. Decidi trazê-los aqui também para diversificar o conteúdo. Este é um dos que considero mais interessante, pois revela um especto da mente humana escondido na linguagem cotidiana da idade antiga.
A Serpente de Bronze no Antigo Testamento
Como revela o Antigo Testamento, várias foram as ocasiões em que o povo hebreu se esqueceu de sua predileção divina desviando dos caminhos do Senhor e, por isso, não escaparam à ira e justiça de Deus. Há, contudo, uma passagem que se destaca: a da serpente de bronze.
Ainda em viagem, o povo então escolhido se rebelou contra Moisés e contra Deus:
“‘Por que nos tiraste do Egito, para morrermos num deserto? Falta pão, não há água […]’ Por esta causa o Senhor enviou contra o povo serpentes ardentes, que feriram e mataram muitos.” — Nm 21:5-6
Arrependido, o povo hebreu pede perdão e o fim da praga. Deus o concede, porém não sem impor condições que não deixam de nos admirar:
“E o Senhor disse-lhe: Faze uma serpente de bronze, e põe-na por sinal: aquele que, sendo ferido, olhar para ela, viverá.” — Nm 21:8
Significado Teológico e Psicológico
A palavra grega para serpente é ὄφις (ophis). Um sinônimo comutável é a palavra δράκων. Estes dois termos são usados no início de uma obra literária chamada Χριστὸς Πάσχων (Christos Paschon: Cristo Sofrendo), considerada uma “tragédia” cristã. A autoria é controversa, mas é atribuída a São Gregório Nazianzeno.
A obra começa com Maria, mãe de Jesus, lamentando o pecado original de Eva. Eis os primeiros três versos da obra:
“Εἴθ’ ὤφελ’ ἐν λειμῶνι μηδ’ ἕρπειν ὄφις μηδ’ ἐν νάπαισι τοῦδ’ ὑφεδρεύειν δράκων, ἀγκυλομήτης· […]”
“Não rastejara no prado a serpente Nem nos vales espreitara sob a grama o dragão astuto. […]”
ὄφις e δράκων são sinônimos, e se referem à serpente astuta do Gênesis. Ora, δράκων vem do verbo δέρκομαι que significa “ver”. Não simplesmente ver mas, segundo o dicionário Bailly “olhar, com a ideia de um olhar fixo ou penetrante”.
Foi com esse mesmo olhar penetrante que Deus ordenou os hebreus a contemplarem a serpente de bronze. Além do óbvio prenúncio do calvário, podemos tirar daí uma interpretação psicológica: assim como os hebreus, só vencemos nossos medos mais aterrorizantes ao olhá-los fixa e deliberadamente e, com coragem, enfrentá-los.